
A doce realeza de Nápoles: a pastelaria que transforma struffoli e pastiera em alta confeitaria
À frente da Pasticceria Celestina, Nancy Sannino honra as receitas da família, eleva clássicos napolitanos como struffoli e pastiera e conquista Nápoles com técnica contemporânea e alma tradicional.
No coração de Nápoles, onde cada esquina guarda o aroma de uma história, a confeitaria Celestina se afirma como um daqueles lugares em que o tempo parece desacelerar para que a memória, a técnica e a doçura encontrem um ponto de perfeito equilíbrio. Ali, a jovem pâtissier Nancy Sannino transforma as receitas de família em experiências contemporâneas, sem jamais trair a alma da tradição napolitana. Entre struffoli dourados e pastiere perfumadas, a cidade reencontra, em forma de sobremesa, o seu modo mais autêntico de celebrar a vida.
A herdeira de uma tradição

Na Campânia, as tradições não são apenas costumes: são códigos afetivos que definem a identidade de um povo habituado a dialogar com o mundo sem perder o próprio sotaque. É nesse cenário que Nancy Sannino se destaca, levando adiante o legado da família Sannino com uma sensibilidade que combina a mão firme da artesã com o olhar atento da confeiteira moderna. Desde a abertura da Celestina, em 2021, o reconhecimento foi rápido, rendendo-lhe o prêmio de “melhor novidade do ano” no guia Pasticceri e Pasticcerie 2022 do Gambero Rosso.
No laboratório de Pollena Trocchia, que ela chama de casa, o atendimento vai muito além de um balcão de confeitaria: é quase um salão de visitas, onde os clientes são recebidos pelo nome e convidados a partilhar tempo, histórias e fatias generosas de pastiera. A confeitaria se torna, assim, extensão da sala de estar, um espaço onde o gesto profissional conserva a delicadeza dos rituais domésticos.
Entre o laboratório e o “pop‑up”
Sem romper com suas raízes, Nancy decidiu ampliar o alcance do próprio trabalho ao inaugurar um elegante pop‑up store no Gran Caffè La Caffetteria, em plena Piazza dei Martiri, no coração de Nápoles. Nesse espaço efêmero, monoporzioni impecáveis, chocolates quentes e panetones dividem a vitrine com os grandes protagonistas das festas: os struffoli e a pastiera que consagraram a Celestina.
O laboratório de Pollena Trocchia, no entanto, permanece como centro nervoso de toda a produção, guardando o silêncio concentrado das massas em repouso e o burburinho sereno das mãos que moldam, cortam, fritam e decoram. Entre o bairro tranquilo e a praça movimentada, a confeitaria constrói uma ponte que leva a essência da casa de família para o cenário vibrante da cidade.
Struffoli: a alegria em pequenos bocados

Os struffoli, talvez um dos símbolos mais festivos da mesa napolitana, são apresentados por Nancy como verdadeiros doces sem tempo, herdeiros de uma longa história que remonta à Magna Grécia. Hoje, encontram parentesco com preparações da atual Grécia, como os lokma ou loukoumades, mas na Celestina carregam a marca forte da memória familiar.
A receita segue a fórmula da avó: um impasto trabalhado à mão com ovos, strutto, farinha, aniz e raspas de limão, delicadamente estendido para formar tiras que depois são cortadas em pequenos cubos e entregues a quem se ocupa da fritura. A cena, descrita como uma verdadeira “equipe” doméstica, revela mais que técnica: traduz um modo de viver o Natal e a família, em que cozinhar é também criar laços.
Depois de um dia de descanso, os pequenos bocados fritos são envolvidos em mel de millefiori, escolhido pela confeiteira por ser menos invasivo ao paladar que o mel de acácia. Por cima, a chuva de anis colorido e pérolas de chocolate francês — uma homenagem à sua segunda pátria profissional, a França — confere graça visual e contraste de texturas, sem jamais cair no excesso.
Pastiera: o tempo como ingrediente

Se os struffoli são sinônimo de festa imediata, a pastiera é o doce da espera, da paciência e do tempo bem respeitado. Nascida nos conventos como sobremesa de Páscoa, tornou‑se, ao longo dos anos, o bolo das grandes alegrias, presente em celebrações de todas as estações. Em Nápoles, cada casa tem a própria versão; na Celestina, a assinatura de Nancy está na precisão da técnica e no equilíbrio de sabores e texturas.
O segredo declarado está na ricotta di fuscella, produto típico da região vesuviana, que garante cremosidade e profundidade de sabor ao recheio. O grão de trigo, por sua vez, é passado apenas pela metade, preservando parte dos grãos inteiros, o que cria um jogo de consistências que faz a pastiera permanecer agradável mesmo “riposata”, isto é, degustada dias depois dos grandes almoços e jantares.
A frolla, preparada à mão com strutto, açúcar, ovo, farinhas e cítricos, acolhe um recheio perfumado de grão cozido em leite com baunilha, ricota, açúcar, ovos e scorzette de laranja. Por fim, as tiras de massa cruzadas sobre a superfície não são mero ornamento: remetem aos decumani da cidade, traçando, na própria sobremesa, a topografia afetiva de Nápoles.
A elegância da simplicidade
Ao falar de suas criações, Nancy insiste na ideia de casa, de intimidade e de continuidade, como se cada doce fosse um elo entre o ontem e o amanhã. Mesmo quando propõe uma variação mais leve da pastiera, substituindo o strutto por manteiga — de preferência francesa — e acrescentando uma pitada de sal, a intenção não é modernizar por capricho, mas oferecer outra leitura possível de um clássico, sem comprometer sua essência.
Essa elegância contida se expressa também na forma como a Celestina se insere no cenário gastronômico atual: ao mesmo tempo em que dialoga com técnicas e referências internacionais, permanece radicalmente fiel ao território, aos ingredientes locais e à linguagem afetiva da tradição napolitana. Entre o laboratório discreto de Pollena Trocchia e o sofisticado pop‑up da Piazza dei Martiri, a confeitaria afirma um estilo que une sobriedade, autenticidade e refinamento.
Em cada bandeja de struffoli cuidadosamente enfeitados e em cada fatia de pastiera que perfuma a sala, há uma espécie de manifesto silencioso: o de que a verdadeira inovação na confeitaria italiana não está em abandonar o passado, mas em escutá‑lo com atenção e traduzi‑lo, com técnica e respeito, para o presente. E é justamente nesse ponto de encontro entre memória e contemporaneidade que a Celestina, guiada pela mão firme e sensível de Nancy Sannino, encontra sua voz mais clara e elegante na doce paisagem de Nápoles.
website: https://celestinapasticceria.com/
Instagram: https://www.instagram.com/nancysannino



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